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Opto Eletrônica prepara-se para abrir capital
Por Janaína Simões
Aos 23 anos de existência, a Opto Eletrônica, de São Carlos, interior de São Paulo, prepara-se para abrir seu capital ― em 2013, quando pretende chegar a R$ 300 milhões de faturamento anual; e construir uma segunda base no exterior para atuar no mundo. A nova base ― a primeira, a Opto Global, com sede na Austrália ― será uma companhia norte-americana, que a Opto quer comprar e transformar em plataforma de exportação de seus produtos para a América, a Europa e a Ásia. Também aprimorou a governança corporativa, para reunir as condições necessárias para o início das operações em bolsa.
A expansão dos negócios no exterior, a partir da Opto Global, não ocorre na velocidade desejada, inclusive por causa da desaceleração da economia mundial. Daí a opção pela aquisição de uma empresa nos EUA ― a Opto manterá a operação australiana mesmo com a compra. A crise econômica não impediu a companhia de aumentar em 80% seu faturamento de 2008 para 2009 ― isto de acordo com Jarbas Caiado de Castro Neto, seu presidente que foi também cientista e professor do Instituto de Física da USP São Carlos. A performance se deve, especialmente, aos projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação para as áreas de defesa e aeroespacial no Brasil. A Opto acaba de entregar ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) o segundo modelo de engenharia da câmera multiespectral MUX, uma das que projeta para os satélites CBERS 3 e 4, que o Brasil constrói junto com a China.
Mas a Opto também inaugura ― possivelmente já em setembro de 2009 ― uma nova fábrica de produção de lentes antirreflexo para óculos, em Brasília; e planeja ter outras dez plantas em dois anos. A empresa, que já foi uma pequena que inova do Pipe e é uma espécie de talismã de quem crê em P&D como caminho para o avanço do Brasil, desenvolve e fabrica produtos em três mercados: o médico, com ênfase em produtos para oftalmologia; o de filmes finos, usados nas lentes antirreflexo, por exemplo, e em equipamentos odontológicos ― em que começou ―; e o de defesa e aeroespacial, desenvolvendo e produzindo câmeras de satélite e dispositivos ópticos para mísseis. Foi o conjunto que resultou em um faturamento de R$ 55 milhões em 2008.
Neste ano, em virtude de compras do governo brasileiro nos segmentos de defesa e aeroespacial, a empresa vai faturar R$ 100 milhões. "Mesmo com a crise, aumentamos nosso faturamento em 150% se compararmos o primeiro semestre deste ano com o do ano passado. Devemos aumentar o faturamento em 60% a 70% no segundo semestre de 2009 se comparado ao mesmo período de 2008", comemora Castro Neto, também um dos fundadores da empresa. Em 2004, o faturamento foi de R$ 20 milhões. "Estamos falando, em 2009, de uma empresa cinco vezes maior", destaca.
Ele não quis contar a Inovação que empresa é essa ― um negócio possível para a Opto por causa da recessão nos Estados Unidos. "Essa companhia tem um só produto, em oftalmologia, uma estratégia que a gente considera não ser sustentável. Queremos usá-la como plataforma de exportação, agregando nossa linha de produtos desenvolvidos no Brasil, que é muito ampla", diz, para explicar a estratégia. A Opto se inspira nas concorrentes Carl Zeiss, da Alemanha, e Topcon, do Japão, líderes de mercado, que detêm linhas muito variadas de produtos na área de oftalmologia. "Começamos a internacionalização pela área médica, porque em defesa e aeroespacial nosso mercado está no Brasil, é área estratégica para o País. A produção de filmes finos para lentes requer fábricas que estejam próximas dos clientes", detalha.
O board da empresa norte-americana recusou a primeira oferta que a Opto apresentou. Castro Neto quer, agora, que o BNDES ― que tem uma linha de financiamento para apoiar a internacionalização de empresas brasileiras ― aumente o recurso que pôs à disposição da empresa de São Carlos. O presidente não quer saber de falar sobre números. A Opto vai fazer uma oferta mais agressiva, diante da recusa dos dirigentes da empresa norte-americana. Além disso, as ações da companhia na Nasdaq, a bolsa de tecnologia de Nova Iorque, tiveram uma ligeira recuperação. Se comprar a empresa, a Opto vai tirá-la da Nasdaq. Considera ser melhor abrir o capital lançando ações no Brasil. Com a aquisição, projeta a Opto, seu faturamento em 2010 chegaria a R$ 240 milhões e a exportação atingiria a casa de R$ 100 milhões ― hoje está em R$ 10 milhões.
Produção de filmes finos: de refletores para dentistas para os óculos
A Opto trabalha com foco em oftalmologia, "a área mais próxima da óptica e da eletrônica, que são nossas especialidades", diz Castro Neto. A empresa produz equipamentos como o campímetro, para medir campo visual; laser para tratar doenças de retina do olho; o Crosslinking, um novo equipamento usado para tratar doenças na córnea; o retinógrafo, um tipo de câmera fotográfica de fundo de olho; um sistema para medir acuidade visual; e microscópios cirúrgicos. Tudo desenvolvido e fabricado pela Opto.
As novidades do mês de julho, contudo, estiveram no segmento aeroespacial, com as câmeras imageadoras de satélite e os dispositivos óptico-eletrônicos dos mísseis brasileiros. A Opto acaba de entregar uma câmera multiespectral (MUX) ao Inpe, que será embarcada no CBERS-3. A empresa trabalha ainda em uma câmera para o satélite Amazônia, também do Inpe, e no desenvolvimento de um sistema óptico para o míssil A-Darter, projeto do Brasil com a África do Sul.
A área de filmes finos foi a primeira da empresa. "Nosso primeiro produto de sucesso foi o refletor odontológico para iluminação. Perdemos esse mercado para os chineses", conta . A Opto ainda produz esse refletor ― em 28 de julho, dia da visita feita por Inovação à empresa, um funcionário trabalhava no tratamento do vidro do equipamento ― que deve refletir luz para iluminar a boca do paciente, mas não calor. "Não paramos a produção porque alguns fabricantes ainda exigem boa qualidade e os chineses não oferecem isso. A maioria dos fabricantes de equipamentos odontológicos só querem preço e estão morrendo por isso", afirma. Os chineses oferecem o refletor por US$ 7; o da Opto custa US$ 25.
Para enfrentar a concorrência, a área de filmes finos mudou de foco ― passou a produzir as lentes antirreflexo para óculos. A empresa tem fábricas em São Carlos, São Paulo, Fortaleza e Porto Alegre; agora, vem a de Brasília. A Opto tem tecnologia própria para as lentes: o antirreflexo é obtido pela deposição de 13 camadas de silicato de espessura nanométrico ― os tais "filmes finos". Para a lente não trincar com a temperatura durante o processo de fabricação, uma camada especial foi adicionada às 13 existentes. A camada especial dificultou o endurecimento da lente; o pessoal de pesquisa e desenvolvimento precisou desenvolver outra camada, para resolver o problema. Há mais três camadas para o efeito antirreflexo.
Tudo isso para constatar que o cliente reclama que as lentes antirreflexo sujam mais do que as comuns. "É igual a piso branco e preto: os dois sujam da mesma forma, mas no branco a sujeira aparece mais. Com o antirreflexo, a sujeira da lente aparece. Não adianta tentar explicar isso para o cliente ― então fizemos outro desenvolvimento para diminuir a aderência da sujeira", comenta. Para isso, a Opto adicionou mais duas camadas à lente: uma para não grudar sujeira e outra para reduzir eventuais marcas de impressão digital. As camadas facilitam a limpeza. Mas quando se limpa a lente com um pano, o atrito cria estática, e com isso partículas aderem à lente. Então a Opto desenvolveu mais uma camada, condutora e transparente, eliminando a estática. Em março último, a empresa apresentou ainda uma lente antirreflexo fotocromática, que escurece com a claridade.
A Opto pesquisa agora uma camada para tornar a lente autolimpante. Um fotocatalisador de moléculas orgânicas, de tamanho nanométrico, é aplicado na camada. Quando suja a lente, o fotocatalisador transforma a molécula orgânica em gás carbônico ―– e ele se desprende. "Não conseguimos ainda fazer o produto em escala industrial. Na verdade, temos dúvidas se vamos conseguir fazê-lo, a dificuldade muito grande", diz. Um dos desafios é deixar mais transparente essa lente autolimpante, hoje de cor leitosa. O outro é acelerar o processo de fotocatálise. "Se esse processo demora cinco dias, é melhor você mesmo limpar as lentes", brinca.
Ênfase em pesquisa, desenvolvimento e inovação
A Opto já tem mais de 400 funcionários (eram 300 há três anos), 80 com nível superior, 70 deles em P&D (há dois anos eram 20). Desses 70, 12 são doutores e 15 são mestres. Sergio Parsekian, gerente de tecnologia da informação e recursos humanos da empresa, diz que a Opto oferece bolsas de até 75% para seus funcionários cursarem graduação, pós-graduação e MBA. Em troca, exige frequência e desempenho. O horário de aula é considerado hora trabalhada.
Castro Neto também não quer contar qual o investimento atual da empresa em P&D. Afirma apenas que aumentou muito nos últimos anos. Em 2006, a Opto investia 16% de seu faturamento de R$ 55 milhões nessas atividades. Hoje, somente nos cinco projetos que receberam subvenção econômica da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a Opto aplica R$ 19 milhões, contrapartida aos outros R$ 19 milhões subvencionados pelo governo. Ou seja, são R$ 38 milhões em cinco projetos de uma carteira de 18 projetos de P&D, a maioria nas áreas médica e de satélites. O executivo lembra que a carga tributária de seus produtos é de 34%, além de a empresa gerar mais postos de trabalho e pagar mais imposto sobre esses salários. "Daqui a cinco anos o que a gente vai pagar de imposto é muito mais do que recebemos de subvenção", acrescenta.
A subvenção ― dinheiro que a Finep dá e não pede reembolso ― financiou o estudo de viabilidade de uma câmera para o satélite Amazônia, que o Inpe pretende construir para lançar em 2011; e o desenvolvimento de um laser amarelo para aplicação em oftalmologia, em fase de testes clínicos; de um Tomógrafo de Coerência Óptica (OCT); também de um sistema infravermelho de visão noturna para defesa; e outro para desenvolver filtros espectrais para os satélites CBERS, que o Brasil não consegue importar por figurar na lista de produtos restritos pelas International Traffic in Arms Regulations (Normas para o Tráfico Internacional de Armas, ITAR) norte-americanas. Chamadas em conjunto de o ITAR, elas restringem a comercialização de componentes produzidos no país, considerados críticos, que podem ter uso militar para países como Coreia do Norte, Cuba e China. Empresas norte-americanas que fabriquem produtos listados no ITAR podem ser penalizadas porque o Brasil é parceiro da China no CBERS.
Patentes
A Opto tem entre 15 e 20 patentes. "São poucas. Temos um de sentimento conflitante entre ter ou não a patente, pois a patente malfeita é um buraco para alguém copiar o produto e uma bem feita é muito cara", justifica o presidente da Opto. Ele diz que a empresa tem patentes fortes, principalmente as feitas pela Opto Global na Austrália, braço internacional da companhia. A Opto Global usou um grupo de advogados para escrever a patente; e outro grupo trabalhou em sua contestação e na busca por deficiências que pudessem levar a cópias. O custo foi de cerca de US$ 100 mil ― além das taxas anuais de manutenção cobradas nos vários países. "A Opto não vive de venda de propriedade intelectual. Não vale a pena esse investimento para possíveis patentes mais fracas. Se por um lado uma patente fraca impede um processo por cópia, por outro não nos permite processar um copiador, justamente por ser fraca", raciocina Castro Neto.
Passado e presente, lado a lado
Há um novo prédio no terreno da Opto, no bairro Jardim Santa Felícia, um pouco afastado do centro de São Carlos. Foi construído para abrigar a Sala Limpa, necessária ao desenvolvimento das câmeras MUX. Inaugurado em 2006, em seus quatro andares estão parte das atividades de produção, toda a área de P&D e a administração. A sala limpa serve também para a montagem dos equipamentos oftalmológicos, por exemplo, além das câmeras de satélite.
O sistema de limpeza custou R$ 2 milhões. São R$ 30 mil por mês para mantê-la funcionando. Os equipamentos mais sensíveis da Sala estão instalados sobre um bloco de seis metros de profundidade, feito em concreto. É um bloco sísmico que não se movimenta mediante um abalo qualquer. "Se passar um ônibus na rua, não pode tremer", explica Mario Stefani. A Sala Limpa também é usada para pesquisa, desenvolvimento e montagem de equipamentos de oftalmologia e odontologia, já que as lentes e outras peças desses aparelhos não podem ter partículas de sujeira.
A melhor maneira de ver a Sala Limpa é do segundo andar, pelos vidros que permitem uma visão completa. Aqui, passado e presente se encontram. As janelas de onde se vê a Sala Limpa estão no Memorial Opto, que conta a trajetória da empresa por meio da exposição de produtos que foram ― ou não ― comercialmente bem-sucedidos. A localização foi proposital, diz Stefani. "Queríamos mostrar aos mais novos que não chegamos facilmente ao que temos hoje." A equipe de P&D teve a ideia de organizar o Memorial e também a executou. De brincadeira, Castro Neto se refere ao lugar como a "sala dos fracassos".
A Opto começou suas atividades no mercado de laser. A empresa queria produzir lasers; era das poucas que sabia fazê-los. Os donos esperavam uma fila de compradores, que nunca apareceu; a decisão foi, então, pensar em aplicações para lasers. Stefani foi para a Opto trabalhar nisso: como aplicar o laser de hélio-neônio que os fundadores da empresa sabiam fazer. Um dos primeiros equipamentos, exposto no Memorial, foi um laser para gerar uma linha-guia para o corte de chapas de metal, madeira, mármore, etc.
A Opto venceu uma concorrência da Siemens, para a Vale do Rio Doce, com um produto derivado do laser para corte de chapas e de madeira. Na nova aplicação, a linha-guia do laser servia para fazer o alinhamento de trilhos de trem em Carajás. O trilho desalinhava por causa do peso dos trens que carregavam minério ― um problema para a companhia por causar atraso na entrega do produto ao navio, o que não podia acontecer por falta de espaço para estocagem no cais. Com trilhos alinhados, os trens conseguiam manter a velocidade esperada para cumprir o cronograma. O laser da Opto mostrava a linha exata em que deveria ser recolocado o trilho, o que era feito por uma máquina especial. A Opto vendeu o produto para a Vale entre 1988 e 1991. Outro produto nessa linha exposto no Memorial é o sistema usado no "Tatuzão", a máquina que perfura os túneis para o metrô de São Paulo.
Mas outras tecnologias no Memorial não tiveram final feliz. A Opto fez medidores de distância para aplicação variadas ― produção de pneus; medição de espessura de madeira, de borracha, de pranchas; fabricação de chassis de caminhão; medição de distâncias entre lâminas de aparelhos de barbear. Outra tentativa de aplicação foi o uso do laser guia como medidor na produção de lingotes siderúrgicos. O equipamento onde estava inserido o medidor explodiu na siderúrgica ― por erro na operação do forno na Vale. Ninguém se feriu na explosão, mas 20 pessoas foram demitidas e o projeto foi abandonado. No Memorial há também histórias que hoje podem ser engraçadas, como a dos leitores de código de barra, criados pela Opto em 1987. Havia um adesivo com letras grandes alertando para um "perigo aos olhos". A Opto não conseguiu vender os leitores, hoje comuns e já ultrapassados pelo sistema chamado RFID, que faz a leitura de etiquetas por radiofrequência.
Pipe também no Memorial
O primeiro financiamento obtido pela Opto no programa de apoio à inovação na pequena empresa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Pipe-Fapesp), em 1998, foi para desenvolver outra aplicação, parecida com a que a Siemens comprou para os trilhos da Vale: um medidor de distância a laser para ser instalado no equipamento de portos que descarregam vagões de minério virando-os de ponta-cabeça. O laser detectava a presença do vagão na baía de desembarque e, com o cálculo de distância, permitia o alinhamento preciso do braço do equipamento. A falta de precisão pode levar o braço para o lugar errado e "rasgar" o vagão. "Vendemos só oito unidades, foi um desastre do ponto de vista comercial. Mas esse medidor era um radar óptico e demandava um controle do laser muito apurado. A mesma tecnologia foi a base do laser médico para tratamento de retina, projeto também apoiado pela Fapesp", lembra Stefani. Nas contas da Opto, mais de 40 mil pessoas conseguiram manter a visão, mesmo que parcial, graças a esse equipamento. E foi ele que colocou a Opto no segmento médico, o principal da empresa hoje.
Com o projeto, a Opto passou a ser reconhecida pela capacidade de processar sinais eletrônicos. Por isso, em 1989, foi chamada por militares brasileiros para participar de um projeto de desenvolvimento de um míssil no Iraque, isso antes da primeira Guerra no Golfo e quando o Iraque ainda era considerado um país amigo dos Estados Unidos. Com a guerra, o projeto foi abortado. Em 1993, militares do Brasil chamaram a Opto novamente para desenvolver um míssil, dessa vez para a Força Aérea Brasileira (FAB). A empresa trabalhou na espoleta do míssil, que é um medidor de distância, área de doutoramento de Stefani. "Esse projeto nos capacitou para outros, do setor aeroespacial e de defesa, e abriu as portas do Inpe para a gente", destaca Stefani. As fotos mostrando o míssil atingindo o alvo estão expostas no Memorial e foram tiradas por um técnico que morreu em 2003, na explosão do VLS em Alcântara. Hoje a Opto tem três profissionais trabalhando na África do Sul para um projeto de quatro anos, o desenvolvimento do olho do míssil A-Darter. A empresa não dá detalhes, por se tratar de equipamento para segurança nacional.
As demais áreas da Opto
Ainda no prédio novo estão a Engenharia de Produto e a Montagem Eletrônica, instaladas uma ao lado da outra. Na Montagem, explica o gerente Sergio Parkesian, é feita a finalização dos produtos. Há equipamentos que simulam uma pequena Sala Limpa: eles são cercados por uma cortina que isola o ar filtrado do resto do ambiente e tem um sistema de ventilação especial. Nesses equipamentos são montados os retinógrafos por exemplo, que têm lentes, filtros e sensores sofisticados e que não podem apresentar partícula de sujeira. Segundo o gerente de TI e RH, a Opto é a única a produzir esses retinógrafos na América do Sul.
Outra área visitada por Inovação foi a de usinagem, localizada no prédio ao lado, onde a Opto produz as peças de que precisa. Os produtos da Opto não são para um mercado que compra em grandes escalas ― um retinógrafo dura anos nas clínicas oftalmológicas e é comprado em poucas unidades pelos médicos. Já os produtos para as áreas de defesa e aeroespacial, além da pequena escala, são customizados para a necessidade do Brasil em cada projeto e sofrem cada vez mais restrições quanto a compra no exterior. Daí o fato de haver poucos fornecedores de peças e componentes para a Opto. A empresa tem ainda uma área para metrologia, que trabalha com o controle de qualidade e o atendimento aos padrões exigidos pelos mercados e pelas leis. E ainda tem uma área de automação, onde faz toda a eletrônica e constrói equipamentos que ela mesma usa em sua produção. No prédio original, a Opto hoje tem a parte de produção de filmes finos e tratamento de lentes.
Evolução no financiamento público às empresas
Com larga experiência no uso de financiamento público federal e estadual, Castro Neto Castro afirma que o Brasil mudou nos últimos 23 anos, no campo da inovação. "O respeito entre universidade e empresas era zero. Fui muito criticado pelo setor acadêmico por fazer tecnologia. Isso mudou radicalmente. Hoje somos exemplo, há incentivos para pessoas abrirem empresa, a mudança cultural foi violenta", destaca. Ele lembra que não existia financiamento na Finep para empresas. Ele só conseguiu um, no começo da Opto, porque era do setor acadêmico e como pesquisador de universidade pública contava com o respeito da agência. "Um empresário não conseguiria. Nem se pensava em financiamento não reembolsável, isso era roubo de dinheiro público", completa, lembrando da existência da subvenção hoje.
A melhoria nas relações entre universidade e empresa, a subvenção econômica, a participação em programas como o Pipe da Fapesp, a criação de incentivos fiscais, a Lei de Inovação, são mecanismos que tornam a vida do empreendedor muito mais fácil do que era, enumera o empresário. A burocracia ainda emperra. "Não existe nenhuma meritocracia no setor, quem agiliza o andamento de um projeto tem o mesmo mérito de quem trava o andamento, não tem medida de desempenho. Não diria que houve grande melhora em termos de burocracia", analisa. Ele diz que a Finep tem evoluído, e que foi positiva a passagem do também físico e pesquisador Sergio Rezende, hoje ministro da Ciência e Tecnologia, na gestão do órgão.
Faz parte da política da empresa atuar em parcerias com universidades e centros de pesquisa. Além do Inpe, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), além da USP São Carlos e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que estão próximas da sede da empresa, há colaboração com a USP de Ribeirão Preto, com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com o Hospital Geral de Araraquara e com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A Unifesp e a USP Ribeirão Preto, por exemplo, testam os equipamentos da Opto. A UFPE tem uma tecnologia OCT de interesse. Há também parceria com universidades estrangeiras: a Macquarie University, de Sydney, na Austrália, e a Universidade de Utah, de Salt Lake City, nos EUA, de quem a Opto licenciou a tecnologia do laser verde, desenvolvida pela empresa para ser usada em seus produtos para tratamento oftalmológico. A Opto enfrentou dificuldade para contratar pessoal. "Há dois ou três anos, detectamos que não éramos o sonho de emprego para engenheiros da USP; fizemos uma pesquisa e descobrimos que eles consideravam a Opto uma empresa para físicos. Mudamos o relacionamento com a escola de engenharia: patrocinamos a participação em competições como a Baja, não mandamos mais físicos para as palestras, e agora conseguimos contratar essas pessoas", finaliza Castro Neto.
fonte: Inovação Unicamp
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