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Desafios de Iniciantes, por José Arnaldo Deutscher

10/08/2011
No Brasil, o private equity costuma entrar em operações de baixo risco. Muitas vezes, os fundos dessa etapa da cadeia atuam como consolidadores de um setor da atividade econômica, sem agregar um ingrediente importante para o desenvolvimento da indústria brasileira: a inovação. A tese é de José Arnaldo Deutscher, sócio diretor da Antera Gestão de Recursos.
"O private equity, no Brasil, tem a característica de entrar em ativos de mais baixo risco. Com frequência os investimentos estão focados em projetos de consolidação de setores e em fazer IPO [oferta inicial de ações]", aponta Deutscher. Diante disso, é preciso que sejam feitas mais injeções de capital em empresas de base tecnológica que estão em fases mais iniciais de maturação. Do contrário, o Brasil perderá muito em termos de competitividade.
"Nós somos grandes produtores e exportadores de álcool e soja, por exemplo. Mas não podemos nos esquecer de que esses são produtos que incorporam tecnologia. Por isso é preciso que haja investimento no que chamamos de empresas de base tecnológica", reforça. Deutscher afirma, ainda, que por mais que sei vá buscar essas empresas no estágio nascente, uma dúvida muito grande de quem investe em capital semente é sobre a viabilidade ou não desse projeto ser absorvido pelo mercado em etapas posteriores do desenvolvimento.
Por isso que, se de um lado está a necessidade de haver mais investidores financiando as etapas iniciais de desenvolvimento de empresas inovadoras, por outro existe um grande desafio para que a idéia se traduza em operações de fato. E esse desafio está justamente em saber separar o joio do trigo quando o assunto é a tal da inovação. "Não dá para ser mais do mesmo. Para ser capaz de atrair o interesse de um investidor, o projeto tem de ser realmente inovador e diferenciado. É preciso ter, por trás, numa equipe bem qualificada", aponta Deutscher. Há um outro elemento a ser analisado: o caráter empreendedor de quem desenvolve o projeto candidato a receber investimentos. "Quando o empreendedor não coopera e não está alinhado com os objetivos do investidor, fica muito complicado", observa. Deutscher ressalva que o segmento de capital semente ainda é muito recente no Brasil e tem pouca tradição. Isso, talvez, explique um pouco as dificuldades encontradas para fazer esse elo da cadeia deslanchar. "Hoje, as escolas já têm programas de empreendedorismo", comenta o especialista, acrescentando que essa pode ser uma forma de minimizar a barreira da falta de preparo do empreendedor para receber investimentos. "De qualquer maneira, todo o ambiente de negócios deve ser melhorado. E isso também é uma questão de tempo", estima.
 
Quanto vale uma empresa?
 
Saber quanto valem os ativos tangíveis de uma empresa é fácil. Basta consultar o balanço e as notas explicativas para encontrar o valor das máquinas, imóveis e outros bens. Já os ativos intangíveis, que ganham cada vez mais importância no valor das companhias, são bem mais difíceis de identificar e mensurar. No caso de empresas menos maduras, esses ativos são ainda mais relevantes, uma vez que essas companhias nem sempre têm tantos ativos tangíveis. Como podemos, então, chegar a um valor dos ativos intangíveis de uma empresa? Para ajudar a responder a essa pergunta, José Arnaldo Deutscher desenvolveu um modelo de "rating de capitais intangíveis". O tema é explorado por ele em sua tese de doutorado e no livro Plano de Negócios - um guia prático, escrito por Deutscher e publicado pela Editora FGV. Nesse modelo, foram instituídos seis capitais e, a partir deles, 19 ativos correspondentes; esses ativos, por sua vez, se desdobraram em 53 indicadores. Os seis capitais são: estratégico, ambiental, relacionamento, estrutural, humano e financeiro. Os ativos correspondentes a esses capitais vão desde sistema de monitoramento de mercado (referente ao capital" estratégico) até administração estratégica do risco (relativo ao capital "financeiro"), passando por ambiente regulatório, infraestrutura e logística (capital "ambiental"), rede de fornecedores e clientes, marca e inserção no mercado (capital de "relacionamento"), capacidade inovação (capital "estrutural"), e gestores e operadores (capital "humano"). Os indicadores são pontos mais palpáveis que auxiliam na mensuração do valor desses capitais. Entre os indicadores que estão dentro do campo de capital estratégico estão, por exemplo, os processos de disseminação do conhecimento e de formulação e implementação da estratégia. No capital ambiental são avaliados, entre outros, o nível de regulação do setor e o sistema de proteção legal da propriedade intelectual. O capital de relacionamento observa a concentração e a fidelização na carteira de clientes, o market share e a reputação dos produtos, entre diversos outros indicadores. No capital estrutural vê-se, por exemplo, a certificação de processos e os sistemas de gestão. Comprometimento com resultados e capacitação estão entre os indicadores do capital humano. Já a competência em gerir o endividamento e a capacidade em captar novos apartes fazem parte do capital financeiro. Vale dizer ainda que o ativo" governança corporativa", inicialmente contemplado dentro do capital estrutural, foi transformado posteriormente no sétimo capital, dada a sua importância. Nele são avaliados pontos como transparência das informações para o mercado, responsabilidade social e ambiental e profissionalização da gestão.
 
Fonte: Revista Investidor Institucional - participações - julho, 2011



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