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Uma bolada à espera de bons candidatos.
02/06/2011
Private equity - Falta de conteúdo inovador é entrave para conquistar recursos disponíveis entre os fundos .
Dados do II Censo da Indústria Brasileira de Private Equity e Venture Capital, realizado pelo Centro de Estudos em Private Equity da FGV (GVCepe), revelam que existem 258 fundos em operação no Brasil, dirigidos por 144 gestores. No início de 2010, as estimativas eram de que eles dispunham de cerca de R$ 7 bilhões, de um total de R$ 17 bilhões, para investir em todo o segmento de empresas nascentes e emergentes, além de pequenas e médias de alto crescimento.
Interessados é que não faltam. Segundo o censo, 33,2% das propostas de investimentos recebidas ao longo de 2009 provieram de micro e pequenas empresas e 31,5% de médias. Os fundos em captação, por sua vez, se dizem abertos a negociar com esse perfil de empreendedor: 70% declaram foco em pequenos e médios negócios. Embora o interesse seja mútuo, as estatísticas são cruéis. "Apenas 43% das propostas recebidas são encaminhadas para uma análise mais profunda; dessas 6% seguem para uma fase de avaliação para investimento e apenas metade recebe o aporte", afirma Cláudio Furtado, coordenador do GVCepe.
Na maioria das vezes, os projetos rejeitados não dispõem de conteúdo inovador; são apenas uma idéia e não uma oportunidade de negócio; não têm possibilidades de produção em escala; não atendem a um problema real de mercado;' não contam com boa equipe empreendedora; as condições de entrada no mercado não são claras e faltam características de venture capital. “Negócios com retorno anual entre 1 5% e 20% não têm perfil para fundos de investimento, que olham para taxas internas de retorno da ordem de 40%", diz Robert Binder, coordenador do comitê de empreendedorismo, inovação e capital semente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP). "Não se pode confundir investimento com financiamento bancário."
Ao contrário do capital para subvenção de pesquisas, por exemplo, oferecido a fundo perdido, o dinheiro.disponibilizado pelos fundos de venture capital tem retorno estimado para um período máximo de dez anos. Segundo Sidney Chameh, presidente da ABVCAP, os gestores de fundos buscam negócios inovadores, onde possam agregar valor, que estejam inseridos em mercados com crescente demanda nacional e internacional e que apresentem oportunidade de saída.
A tecnologia, que na década passada foi a área mais prospectada pelos fundos, hoje já divide espaço com outros segmentos, como agronegócio, infraestrutura, serviços de transporte e Iogística, educação, energia e combustíveis. As regiões de prospecção também se expandiram e embora a maioria das empresas alcançadas ainda seja do Sul e do Sudeste, os fundos passaram a dar mais atenção ao Nordeste.
"O que se busca são boas oportunidades, empresas que forneçam tecnologia aplicada com alta capacidade de crescimento, inovadoras e que estejam dispostas a trabalhar em parceria com um sócio exigente, independentemente do endereço", afirma Paulo Silvestrini, diretor de private equity da Rio Bravo. A gestora, aliás foi uma das primeiras a investir na região, que hoje conta com o Rio Bravo Nordeste lI, fundo em fase de investimento voltado a empresas com faturamento anual de até R$ 200 milhões.
Tão importante quanto a tecnologia aplicada e a capacidade de expansão, dizem os especialistas, é a empresa estar preparada para receber um sócio e não simplesmente uma injeção de capital. O que isso significa? Que o investidor acompanhará o dia a dia do negócio e participará do processo de tomada de decisão. Para tanto, os empresários precisam estar dispostos a mostrar todas as contas e a aceitar dividir as decisões, a pensar e a agir como uma grande empresa.
"Os empreendedores , na maioria das vezes, olham apenas o dinheiro que os ajudará a crescer, mas o capital é apenas um dos componentes da gestão", afirma Marcus Reguera, sócio do Fir Capital, com R$ 200 milhões sob gestão e 13 empresas no portfólio.
Segundo ele, o fundo vem para estruturar e trabalhar junto a fim de que em um prazo entre cinco e dez anos, tempo médio de permanência da sociedade, a empresa passe a valer muito mais do que quando foi aportada.
Poucas são, porém, as empresas com chances de escolher com qual fundo querem se associar- a maioria bate à porta dos investidores, com mínimas chances de sucesso. Dados da ABVCAP destacam que de 2.297 projetos apresentados de forma espontânea, ou seja, sem nenhum tipo intermediação, apenas seis têm investimentos realizados.
Quando ocorre prospecção a cada 177 propostas analisadas, 13 são escolhidas. Mas a responsabilidade pelos baixos índices de adesão não é apenas das empresas, argumenta Ricardo Tortorella, diretor técnico do Sebrae-SP. "As regras são muito duras para as pequenas empresas por parte dos fundos. As exigências de governança são as mesmas para quem vai receber um investimento de R$ 20 mil e para aquele que receberá R$ 20 milhões", afirma. "É preciso mudar essa avaliação."
Ter maior flexibilidade na avaliação e nas exigências não é o único desafio a ser enfrentado pelos gestores de fundos na visão de CarIos Eduardo Grillaume, diretor executivo da gestora Confrapar, responsável pelos fundos HorizonTi e NascenTI, ambos na área de tecnologia. "Trata-se de uma indústria nova no país, não temos braços para investir em muitas empresas ao mesmo tempo, formar profissionais com o avião no ar é difícil", diz. "Se os empreendedores precisam preparar-se melhor para receber esse tipo de sócio, os fundos também precisam de mais profissionais para efetivamente trabalhar junto e ajudar empresa a multiplicar seu valor".
FONTE: Jornal Valor Econômico, Terça-feira, 31 de maio de 2011.
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